terça-feira, 22 de junho de 2010

5 aberturas de sonetos




1. Luiz Vaz de Camões (1524 – 1580):

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança,
Todo mundo é composto de mudanças,
Tomando sempre novas qualidades.


Mais de 400 anos atrás, Camões já tinha entendido que as coisas passam, que tudo muda, dos aspectos mais externos aos mais internos. A sabedoria do autor de Os Lusíadas estava em perceber isso e não ficar aborrecendo o leitor nem com choradeiras pelo que já tinha ido, nem com recomendações para que se tentasse parar o curso da vida.



2. Alphonsus de Guimaraens (1870 – 1921): O Náufrago

E temo, e temo tudo, e nem sei o que temo.
Perde-se o meu olhar pelas trevas sem fim.
Medonha é a escuridão do céu, de extremo a extremo.
De que noite sem luar, mísero e triste, vim?


O velho Alphonsus, que mudou até o nome para ficar mais conspícuo, soube dar uma competente noticia da sensação de estar perdido: como um naufrago, o sujeito teme, teme tudo e teme o desconhecido, que é o pior dos inimigos.



3. Augusto dos Anjos (1884 – 1914): Versos Íntimos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua ultima quimera.
Somente a Ingratidão – esta quimera –
Foi tua companheira inseparável!...


Um clássico escolar, um raro poema capaz de encantar adolescentes rebeldes e sem paciência para a leitura. Por quê? Porque o soneto inventa uma distancia adequada em relação ao problema da desilusão, que todos nós conhecemos.



4. Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1987): Soneto da Perdida Esperança

Perdi o bonde e a esperança.
Volto pálido para casa.
A rua é inútil e nenhum auto
Passaria sobre o meu corpo


Aquela suave melancolia que o poeta maior cultivou como poucos aqui aparece na forma de crônica breve da vida urbana moderna: nem chega ser uma vontade de suicídio, mas um desconsolo pela solidão geral, acachapante, inevitável – mas isso dito de modo ameno, justapondo o bonde e a esperança, o concreto e o abstrato, o chão e o sublime.



5. Vinicius de Moraes (1913 – 1980): Soneto da Fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento


Uma cantada irresistível, em forma de declaração de intenções relativas a fidelidade, escrita por um homem que teve vários amores – mas cada um absoluto, como ele diz nos dois últimos versos: “Que não seja imortal, posto que é chama/Mas que seja infinito enquanto dure”.

Nenhum comentário:

Seguidores