Eu vou falar pra vocês que eu tinha chegado a conclusão que eu sou de outro planeta. Agora vou tendo cada vez mais certeza que, além disso, eu devia viver em outra época. Eu, definitivamente devo ser um marciano do passado. Estou perdido nessa época tentando encontrar alguma coisa ou alguem que valha a pena. Já fiz vários testes, a maioria mal sucedidos. Não sei se são os valores que trago comigo, não sei se minha bagagem é muito pesada ou complexa, ou se exijo demais das pessoas desse tempo e dessa Terra.
Eu reflito sempre sobre isso. Eu acho tão fácil de encaixar-se nos requisitos exigidos. Minha viagem no tempo deve ter dado errado em algum momento. Talvez minha máquina do tempo me colocou aqui de propósito ou estava com defeito mesmo. Dizem por aqui que nada é por acaso. Já desconfiei de quem me mandou nessa missão porque meu chip está em conflito com a tecnologia atual. É questão de velocidade de execução das instruções. O processamento dos resultados não está de acordo com os padrões atuais. O povo daqui quer tudo pra ontem. Até entendo esse desejo quando se trata de assuntos formais, empresariais, comerciais, mas não consigo fazer minha memória armazenar essa pressa quando o assunto são sentimentos, pessoas, relações...
Lá na minha terra, no idos de mil novecentos e antigamente se esperava por quase tudo. A gente esperava pessoas chegarem de viagem, esperava uma carta, esperava até comida, esperava o amor. Naquele tempo eu não podia clicar num botão, apertar outro, naquele tempo eu não esperava o telefone tocar. Hoje percebo que ninguém espera ninguém e muito menos alguma coisa. Sentimentos e desejos estão entorpecidos pela ansiedade, pela pressa de querer alguém pronto e completamente perfeito! Até já me acostumei a escutar todos falarem sobre perfeição e sobre ideais e sobre qualidades e defeitos. Eu mesmo faço isso, admito. Estou tentando me adaptar e sofro com o tilt aqui dentro toda vez que meu eu verdadeiro se confronta com meu eu tentando se adaptar. Deve ser porque eu tento por em prática as coisas que eu falo e ainda não aprendi que ninguém faz assim. Ainda não aprendi que é só preciso falar, de preferência pra todos saberem que você é igual. Ou vai ver eu não tomei alguma coisa que me contamine com essa dissimulação, talvez inconsciente, de personalidade.
Não vou por a culpa em quem inventou o computador, a internet, a automação em tudo. Só porque eu não me automatizei também não vou fazer isso. Nunca vou aprender a dizer um “eu te amo” automático e acho que não vou conseguir encontrar desculpas para as minhas atitudes de acordo com o sentido do sopro do vento. E nem vou conseguir parecer outra pessoa, a não ser movido a álcool. Estas grifes que vejo por aí são tão falsas quanto nota de cinquenta centavos. Falando em dinheiro, no filme “O Homem que copiava”, a personagem Silvia (Leandra Leal) recebe um pedido de casamento de André (Lázaro Ramos). Vamos ao diálogo que vai ser melhor de entender.
André: Sílvia? Tu me espera?
Silvia: Espero.
André: Tu... Tu quer casar comigo e sair daqui?
Sílvia: Claro que sim.
André: Pode levar uns seis meses.
Silvia: Eu espero. Eu espero até mais, se precisar. Te cuida.
“Eu espero. Espero até mais se precisar. Te cuida”. Que frase essa!
Estou pensando se preciso terminar este texto depois dessa frase. Eu imagino que as pessoas quando leem ou ouvem algo assim, não conseguem admitir “uma coisa dessas” nem por um segundo. É por essas e outras que vou esperar a minha marciana errar a viagem no tempo e aparecer pra mim dizendo: “poxa, eu já tava cansada de tanto esperar!”.
2 comentários:
EI mto OBRIGADA, seu blog tb é otimo, vou passar sempre por aqui.. inclusive vou adicionar voce
abraços e bjosss
Imagina, eu que agradeço sua visita e seu elogio.
Abraços e beijos.
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