quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Contramão - Parte 2

Lá de onde eu vim, um lugar acanhado no meio do nada, é um planeta pequeno, porém aconchegante, onde não vivem duas pessoas. Atualmente estou neste lugar com mais de cento e oitenta e cinco milhões de seres “correndo sobre este mesmo velho chão”. Eu trouxe do meu berço educação. Também fui pra escola receber a educação formal necessária para algumas batalhas da vida. Mas vou contar um segredo pra vocês. A melhor educação eu ganhei da minha mãe e do meu pai, ganhei com os exemplos errados e os certos deles, com os meus e de todas as pessoas com as quais eu me relacionei.

Porém é necessário ter condições de fazer um discernimento correto a cerca destes exemplos. Eu posso aprender uma coisa sobre um fato e você pode aprender outra, ou não aprender nada, ou ainda aprender algo de maneira distorcida. Você pode entender uma coisa a partir de uma palavra minha dita ou escrita. Não depende só da tua inteligência, mas da bagagem que você carrega. Se você aprendeu a julgar sempre antes, ou se você aprendeu a ser amargo, ou se acostumou a ser do jeito que é, sem que ninguém te ensinasse que é errado ser assim, vai levar isso pra vida inteira e isso vai nortear as tuas relações e tuas escolhas.

Se você escolheu o caminho mais fácil você não vai me encontrar. Eu fui colhendo várias coisas pela estrada na viagem que eu fiz. Paguei caro por algumas, mas te digo que valeu muito a pena. E de tudo que carrego aqui, poucas coisas eu dispenso. E como estou muito vivo e ainda percorrendo esta trilha, por vezes pegando atalhos, outras vezes fazendo a rota mais difícil, ainda aprendo. Obtenho informações sobre mim e como um legitimo extraterrestre colho informações sobre vocês, terráqueos. Mas confesso que estou me tornando um pesquisador frustrado. Porque por mais informações que eu consigo colher, não consigo entender alguns aspectos da personalidade humana desta época. Já desisti de analisar os dados. Só observo, salvo num arquivo pessoal e jogo num canto aqui. É uma espécie de lixeira onde fica tudo de ruim. Todas as falhas, asperezas, as dissimulações de que são capazes pessoas que conheci.
Como eu já disse, não acho difícil ser e agir como eu espero. Talvez ficar esperando alguma coisa seja o problema. Isso me faz pensar que provavelmente eu morava no meio de um sonho cheio de leite condensado, que ficava flutuando numa nuvem. Uma coisa assim, doce e sonhadora. Sendo assim, a cada dia descubro mais pistas sobre mim. Já sei que sou um marciano do passado que aterrissou por engano numa época e num planeta completamente estranho e estou tentando me adaptar aos hábitos e costumes dos habitantes. Com isso, vou descobrindo do que sou feito e entendendo que todo esse conflito acontece porque eu escolhi o coração, a boa educação, a cordialidade, o carinho, a preocupação, mesmo com pessoas que eu mal conheço. E como eu disse, pago caro, e não recebo troco. Às vezes até recebo o troco, mas numa moeda que eu prefiro jogar no lixo. Não me arrependo. Eu sei que pra vocês é conveniente e cômodo o caminho mais fácil. Eu sei que já não é mais mil novecentos e antigamente.

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